Pip: Tony Muzyki, porque a música não necessariamente popular merece perguntas não necessariamente óbvias. Hoje Konrad Kaczmarczyk pergunta o que uma canção faz à memória: se a conserva ou se a deixa voltar a entrar no quarto, quente e ruidosa.
Mara: Neste episódio, dois temas. Primeiro: como as canções guardam pessoas, as das fotografias da insurreição e as das antigas conversas no telefone. Segundo: o que a música faz ao tempo quando o calendário diz uma coisa e o groove diz outra.
Pip: Comecemos pelas canções que se lembram por nós.
Canções que se lembram por nós
Mara: Este segmento faz uma pergunta: como uma canção pode guardar uma pessoa que a história nos tirou, e o que acontece quando a melodia soa comum, mas a história por trás dela é tudo menos comum.
Pip: A publicação sobre a Insurreição de Varsóvia abre isso diretamente, e fá-lo com uma frase que poderia ser dita na cozinha ou ao telefone.
Mara: O contexto é este: Błażej Król canta sobre um soldado que morre a pensar na mulher que ama, e a publicação descreve-o assim: «O que mais dói é a sua banalidade. Esta frase poderia ser dita na nossa cozinha, no elétrico, ao telefone. Qualquer um sabe prometer um passeio. Só a guerra transforma essa promessa em algo impossível de cumprir.»
Pip: Portanto, o mecanismo é simples e cruel ao mesmo tempo: a canção deixa-te entrar por uma porta que parece a tua própria, e do outro lado está o ano de 1944.
Mara: É exatamente isso que Organek também faz com Klaudia Szafrańska em «Idziemy w miasto», do álbum «Ocali nas miłość»: pop de sintetizadores, um refrão para o qual o corpo se mexe antes da cabeça, e depois descobre-se que não há notícias de duas raparigas. A leveza do som e o peso da história atuam ao mesmo tempo.
Pip: E «Fotograf Brok», do mesmo álbum, inverte a perspetiva: em vez das vítimas, a pessoa do outro lado da máquina fotográfica.
Mara: Eugeniusz Lokajski, de pseudónimo Brok, fotografava sorrisos e momentos de descanso ao lado dos combates. Morreu a 25 de setembro de 1944. A irmã, Zofia Domańska, salvou os seus negativos. A publicação assinala: esta história tem ainda outra protagonista.
Pip: Smolik e Natalia Grosiak, em «Alunia», descem ainda mais fundo, até a um vestido de noiva. Alina Augustowska-Mrozowska e Jurek, separados pela Insurreição, reencontraram-se em 2001, casaram-se ambos com mais de oitenta anos e ele morreu três anos depois.
Mara: A publicação sobre Kombajn do zbierania kur po wioskach traz outro tipo de memória, do liceu, pessoal, com «Planety i liście» no centro. Ali, perante uma ameaça cósmica, faz-se uma promessa de comprar laranjas. Um gesto ao alcance das mãos, quando tudo o resto escapou ao controlo.
Pip: Lao Che em «Stare Miasto», Mela Koteluk com Kwadrofonik na «Astronomia» de Baczyński, Brodka com Hades em «Moja droga», para o projeto «WAWA»: cada uma destas gravações procura uma entrada diferente para a mesma proximidade impossível.
Mara: E os The Shivers em «Puppy Dog» e os The Clientele em «Reflections After Jane» mostram que uma canção como veículo de memória também funciona sem uma moldura histórica: basta uma conversa antiga aberta à noite ou uma guitarra a refletir-se no vidro.
Pip: O tempo e a estação também têm as suas canções, e são feitas de uma maneira completamente diferente.
Quando o groove sabe melhor do que o calendário
Mara: Este segmento trata da música que não aceita o que a data diz, e de como o ritmo consegue suspender o tempo num lugar onde queremos ficar.
Pip: «September», dos Earth, Wind and Fire, é a melhor prova. Primeiro de setembro, um frio de papel, as escolas abrem as portas e é então que entra a guitarra de Al McKay.
Mara: A publicação descreve o mecanismo com precisão: «Talvez seja precisamente por isso que September lida tão bem com a memória. Não a conserva como uma fotografia. Abre a porta e deixa a recordação voltar a entrar no quarto, quente, ruidosa, ainda capaz de mudar os móveis de lugar.»
Pip: O baixo não recorda, os sopros não suspiram: todo o arranjo comporta-se como se aquela noite continuasse a acontecer. O passado no presente.
Mara: A publicação também explica de onde vem o «21 de setembro»: Allee Willis afirmou durante décadas que a data tinha sido escolhida apenas porque era a que se cantava melhor. Só depois da morte de Maurice White a mulher revelou que era a data prevista para o nascimento do filho deles, Kahbran, que nasceu prematuramente.
Pip: Uma mensagem privada escondida com tanta eficácia que a coautora só a descobriu anos depois. Talvez seja o melhor argumento para mostrar que o groove por vezes é mais estanque do que um esconderijo.
Mara: «Friday I’m in Love», dos The Cure, funciona de outra maneira: não através de um peso escondido, mas de uma leveza inesperada. A publicação começa às seis da manhã, com saudades dos filhos, e chega a uma canção que não nega nenhum dia da semana, apenas não deixa que lhe tirem a sexta-feira.
Pip: E esse detalhe de produção: a gravação foi acelerada ajustando a velocidade da fita, ficando um quarto de tom acima de Ré maior, e de repente tudo ficou mais luminoso, quase antinaturalmente alegre.
Mara: A publicação diz isso diretamente: a alegria não é o contrário da melancolia. Às vezes nasce no mesmo lugar, apenas vira o rosto para o sol durante alguns minutos. Ambas as canções, «September» e «Friday», fazem exatamente a mesma coisa, só que a temperaturas diferentes.
Pip: Uma canção como promessa de um passeio que não aconteceu. Uma canção como um baixo que não conhece o tempo passado. Depois de tudo isto é difícil ouvir música da mesma maneira.
Mara: Fica a pergunta que estes textos fazem em conjunto: se a memória precisa de uma melodia para não se transformar num museu. Até à próxima.











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