Sunny, de Bobby Hebb, ou o que acontece quando o mundo acaba e escolhes a luz.
Uma canção que chega no momento certo
Há canções que encontram um bom momento, quando tudo está no lugar e soam agradavelmente por detrás da vida quotidiana. Outras chegam precisamente quando já nada devia conseguir tocar-nos. Sunny pertence ao segundo grupo. Pode aparecer por acaso na rádio ou num café, algures entre uma faixa e outra, e passar por algo leve. Se ficarmos com ela um pouco mais, acontece algo mais profundo. Percebemos que a canção não é sobre o sol, mas sobre o que fazemos quando ele não existe.
Berlim, janeiro de 2013
Durante muito tempo nunca tinha ouvido verdadeiramente esta canção. Alguma coisa mudou em janeiro de 2013, quando estava em Berlim a começar um trabalho temporário numa boutique bastante hipster e me sentia simplesmente sozinho no estrangeiro, longe de tudo o que conhecia. Não era a Berlim da fantasia turística, dos clubes e das escapadinhas de fim de semana. Era fria, cinzenta e por vezes opressiva na sua estranheza e rotina quotidiana.
Ali, a música tocava num gira-discos, criando uma atmosfera própria. Entre os discos interessantes havia um LP ao qual depressa comecei a voltar vezes sem conta, Sunny, de Bobby Hebb. A faixa não mudou o lugar onde eu estava nem a situação que vivia. Mudou a maneira como eu olhava para ela. Berlim continuava fria e estrangeira, mas tornava-se um pouco mais suportável, como se alguma coisa nela aquecesse devagar.
Sentia que algo se aproximava, uma primavera já presente no ar e com cheiro a café e vida. Curiosamente, passados todos estes anos, regressou uma sensação muito semelhante.
Uma história que não combina com a música
A história de Bobby Hebb é uma daquelas ocasiões em que a realidade parece totalmente incompatível com a música que produziu. Em 1963, o irmão foi morto a tiro. No dia seguinte, o assassinato de John F. Kennedy abalou o mundo. É difícil imaginar que uma canção leve e quente pudesse surgir deste contexto, mas é aí que aparece Sunny.
Não foge à dor nem a disfarça. Toma a decisão consciente de ver para lá do que é mais escuro. O contraste inicial entre a chuva de ontem e a luz de hoje não é uma pose poética. A chuva veio primeiro e foi realmente vivida. Só depois pôde aparecer a luz.
O que se ouve debaixo da superfície
Musicalmente, Sunny é menos simples do que o primeiro contacto sugere. À frente estão a leveza da soul e um groove convidativo, mas por baixo trabalha a linguagem do jazz, com uma harmonia mais rica e uma melodia que recusa o caminho mais fácil. É por isso que a faixa não envelheceu até se tornar peça de museu. Mantém a frescura e a capacidade de afetar quem a ouve, seja qual for a década.
Porque continua a funcionar
Muitas canções dessa época sobrevivem sobretudo como nostalgia ou curiosidade. Sunny continua a funcionar no presente porque toca em algo universal e repetidamente humano: os momentos em que alguma coisa acaba, se desfaz ou deixa de fazer sentido. A canção não oferece uma resposta simples nem um consolo barato. Recorda que a perspetiva importa e que, mesmo num momento difícil, podemos tentar ver mais do que a escuridão mais óbvia.
Muitas versões, o mesmo núcleo
Frank Sinatra, Stevie Wonder e Boney M. estão entre os muitos artistas que interpretaram Sunny, dando-lhe cada um outra forma. Para muitos ouvintes, a versão mais dançável e ligeiramente disco de Boney M. é hoje a mais conhecida. Levou a canção para outro circuito da cultura pop e até um público que talvez não conheça o autor.
Por muito que o arranjo e o estilo mudem, o centro da canção mantém-se. A sua força não depende de uma produção ou som específicos, mas de uma emoção reconhecível em qualquer contexto.
Não o sol, mas uma decisão
O grande mal-entendido sobre Sunny é ouvir apenas leveza e prazer. Na verdade, esta é uma canção sobre decidir reparar na luz quando tudo à nossa volta argumenta contra ela. Talvez seja por isso que regressa em determinados momentos de uma vida e começa a significar mais do que antes. Não é simplesmente uma melodia bonita. Ajuda a reorganizar a forma como vemos a realidade.













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