O shoegaze não regressou porque alguém o ressuscitou.
Não houve manifesto nem declaração de regresso.
Nenhuma cena anunciou que tudo começaria de novo.
A música simplesmente começou a reaparecer nos auscultadores das pessoas, primeiro discretamente, em playlists, recomendações noturnas dos algoritmos e canais do YouTube geridos por pessoas mais parecidas com bibliotecários do som do que com influenciadores.
Nesse sentido, o regresso do shoegaze é um dos fenómenos mais europeus da música contemporânea. Não chegou triunfalmente. Foi-se infiltrando devagar.
Uma linguagem de nevoeiro
A certa altura, alguém reparou que as pessoas voltavam a ouvir guitarras que não soavam cortantes e vozes que flutuavam entre os instrumentos em vez de ficarem em primeiro plano. As melodias deixaram de ser linhas e tornaram-se espaços.
O regresso foi silencioso e quase tímido. No entanto, em poucos anos, uma nova geração de artistas começou, consciente ou inconscientemente, a falar a linguagem do nevoeiro.
Alguns remetiam diretamente para a tradição. Outros herdavam apenas a sua sensibilidade.
O regresso dos Slowdive tornou-se um símbolo. Uma banda que, nos anos 90, parecia uma relíquia de uma época passada lançou de repente um álbum que não soava nostálgico, mas inteiramente contemporâneo.
Ao mesmo tempo, bandas que nunca tinham pertencido à primeira vaga do shoegaze começaram a falar a mesma linguagem do espaço. Os Beach House criaram música que se espalhava como luz por uma sala envolta em nevoeiro.
Os DIIV recordaram-nos que o nevoeiro das guitarras podia ser melancólico e intenso ao mesmo tempo.
Os Alvvays mostraram que uma melodia delicada e uma reverberação leve podiam construir toda uma paisagem emocional.
Entre uns e outros surgiram artistas como Tamaryn e Night Tapes, para quem o shoegaze já não era um estilo dos anos 90, mas uma das linguagens da música contemporânea.
Uma forma de ouvir o mundo
Este é o ponto essencial. O shoegaze não é um género feito de nostalgia. É uma forma de ouvir o mundo.
Regressa sempre que a realidade se torna demasiado ruidosa, rápida e inequívoca. O século XXI já não se parece com a época da Guerra Fria, mas tem a sua própria forma de sobrecarga. A informação chega sem parar. As opiniões formam-se num instante. A realidade exige uma reação antes de o pensamento ter tempo de se formar.
Um mundo assim cria a necessidade de distância, não política nem ideológica, mas sensorial, e de música que não exija uma resposta imediata, música que dê espaço.
O shoegaze não tenta mudar o mundo, nem sequer comentá-lo.
Esbate-lhe as arestas.
Talvez seja por isso que regressa sempre que o mundo se torna demasiado cortante.













Comentários
0