Primeiro veio o SoundCloud. Não uma prateleira de singles usados, não um catálogo da Tonpress, não o ano de 1980. Uma barra azul avançava pelo ecrã, enquanto dos altifalantes saía uma canção que não parecia ter sido reencontrada. Soava como se estivesse à minha espera.
Cheguei ao The Very Polish Cut Outs graças a contactos no então muito jovem circuito digital da indústria musical polaca. As notícias sobre projetos interessantes ainda circulavam entre pessoas, e não entre os campos cuidadosamente selecionados de um algoritmo. Alguém conhecia alguém, alguém enviava um link, e sob a onda azul do SoundCloud abria-se uma entrada para a música polaca que ninguém tinha ainda pensado chamar clássica.
Eu não conhecia a versão original de A może by…, dos Transport Band. Acabou por ser o melhor começo possível.
Não estava a ouvir uma relíquia restaurada. Não comparava a nobreza da versão antiga com a comodidade da nova. Jazxing (dupla de produtores de Gdańsk) entregou-me a faixa como música do presente, sem vitrina, data ou cheiro de arquivo. Só mais tarde descobri que, por baixo dos sete minutos e meio do edit, estava um single lançado trinta e quatro anos antes.
Um baixo que tem tempo
O que primeiro me prende é o seu funk preguiçoso. O baixo não leva a canção pela mão. Embala-a com a anca e, de vez em quando, deixa-a afastar-se meio passo. A bateria mantém o movimento sem pressa, a guitarra deixa incisões curtas e secas, e tudo avança com a confiança de quem já não precisa de provar a ninguém que chegará ao destino.
É música de dança que não dá ordens. Não levanta a voz, não acelera a respiração nem conta os segundos até ao refrão. Em vez de puxar uma pessoa para a pista, transforma lentamente em pista o espaço onde ela se encontra. Um quarto, um carro, uma praia, o fim da tarde, um pedaço da cidade. Tudo começa a mover-se ao mesmo ritmo.
Roman Pazur Wojciechowski (voz) não tenta vencer o ritmo. A sua voz tem uma aspereza soul, mas pousa na gravação com liberdade, quase despreocupada, com um sorriso discreto escondido sob cada frase. Mesmo quando a melodia sobe, o controlo não desaparece. Ele sabe quanto poderia mostrar e, por isso, mostra menos.
Jazxing não pintou modernidade sobre os Transport Band. Jakub Sautycz e Mateusz Filipiuk cortaram e repetiram o material para que aquilo que antes cabia em pouco mais de três minutos pudesse respirar durante sete e meio. Prolongaram o prazer, libertaram o ritmo do horário de uma canção e deixaram mais espaço entre os gestos. Não mudaram a direção da viagem. Alargaram a estrada.
O ano de 1980 sem vitrina
Os Transport Band formaram-se em Wrocław, em 1979. Ao lado de Wojciechowski tocavam Romuald Frey (guitarra), Włodzimierz Krakus (baixo), Jerzy Kaczmarek (teclados) e Jacek Ratajczyk (bateria). O grupo existiu por pouco tempo, gravou seis faixas para a Rádio Polaca e duas delas chegaram a um single da Tonpress. De um lado estava A może by…; do outro, Obłęd.
Há qualquer coisa de indecentemente polaco nesta breve história. Uma banda com som próprio, um excelente vocalista e um pulso funk surge por um instante, deixa um pequeno disco e algumas gravações de rádio, e depois dissolve-se entre mudanças de formação e novos nomes. Não fracassa de modo espetacular. Simplesmente desaparece com silêncio suficiente para poder ser descoberta muitos anos depois.
A letra de Grzegorz Walczak não conta uma história pela ordem habitual. Sugere imagens de um passeio pelo mundo, do vento convidado para a noite, de sinais de trânsito mudados de lugar, de uma estação deserta e de um guarda de passagem de nível a quem talvez fizesse bem algo mais forte. Em vez de declarações, recebemos uma sucessão de possibilidades. Cada uma começa com uma pergunta inocente e abre por um instante a porta para uma vida vivida de modo ligeiramente diferente.
O ritmo faz exatamente o mesmo. Não promete uma revolução, apenas desloca o acento. Não manda abandonar a estrada percorrida até aqui, limita-se a verificar o que acontece quando os sinais mudam de lugar. O funk dos Transport Band não é tenso nem demonstrativo. Tem a suavidade do fim do verão, quando o dia ainda é longo, mas a luz começa já a denunciar o seu final.
O mais surpreendente é perceber como Jazxing precisou de acrescentar tão pouco. Todo o material da futura versão de clube já se encontrava no original. O baixo já sabia trabalhar sob a pele. A guitarra deixava as aberturas certas. A bateria carregava aquele passo característico, descontraído mas nunca acidental. O edit não salvou uma canção fraca. Permitiu que uma boa canção durasse o tempo adequado.
O passado polaco sai à noite
The Very Polish Cut Outs nasceu em 2010 de uma suspeita simples: na música gravada durante a República Popular da Polónia escondia-se muito mais ritmo do que as histórias oficiais da canção polaca tinham guardado. Maciej Zambon (DJ, produtor e fundador da editora), juntamente com um grupo de produtores amigos, começou a retirar dos discos funk, soul, disco, eletrónica, psicadelismo e todos os lugares onde os géneros tinham tido tempo de se tornar indecentemente íntimos.
Não se tratava de restaurar monumentos. As antigas gravações eram cortadas, prolongadas e colocadas sob as luzes do clube para poderem voltar a agir sobre o corpo. O SoundCloud tornou-se os bastidores dessa arqueologia peculiar. A música retirada dos singles polacos começou a circular nos sets de pessoas que não conheciam nem a língua nem o contexto original, mas reconheciam o groove sem hesitação.
O edit de Jazxing apareceu no perfil de The Very Polish Cut Outs em 10 de junho de 2014. No outono, chegou ao terceiro sampler em vinil da editora. Mais tarde, lojas estrangeiras descreveram-no como ouro balear lento e hipnótica house de praia, porque a linguagem dos catálogos precisa de compartimentos. No entanto, o mais interessante em A może by… continua a ser precisamente o modo como a gravação escapa de todos eles.
Há funk, mas demasiado sonhador para exibir os músculos. Há soft rock que se esqueceu da disciplina do refrão. Há reggae escondido na colocação dos acentos, soul na voz de Wojciechowski e uma dimensão de clube que não chegou com uma caixa de ritmos. Foi encontrada no trabalho de uma banda a tocar ao vivo. Jazxing não disfarçou a Polónia de 1980 de Ibiza. A dupla apenas reparou que um pedaço de Ibiza estivera desde o início escondido algures sob Wrocław.
Azul, branco, cinzento e laranja
Anos depois, A może by… regressa até mim numa praia. Fico deitado, imóvel, a olhar para o azul do céu, o branco e o cinzento das nuvens que passam devagar e o laranja do sol. O mar coloca a sua própria banda sonora sob a gravação. O rumor aproxima-se, recua e regressa, como se a água conhecesse o princípio de um bom loop há mais tempo do que toda a música de clube.
O baixo recebe um pouco de areia sob cada passo, a bateria perde a fronteira no movimento regular das ondas e a voz de Wojciechowski deriva em direção ao céu. As duas ordens combinam porque nenhuma tenta apressar coisa alguma. Jazxing repete o velho funk, o mar repete-se a si próprio. Música em redor, nuvens por cima. Não é preciso mais.
Estar deitado torna-se uma forma de escutar. O corpo cala-se, o olhar pode vaguear e o ritmo transporta tranquilamente o tempo de um lado da canção para o outro. Nenhuma história exige um desfecho. Fica um instante organizado de forma ligeiramente diferente, tal como um velho single depois de se encontrar com um edit.
The Very Polish Cut Outs deu uma segunda vida à gravação dos Transport Band. Agora a gravação retribui o favor. Guarda o azul do céu, o laranja do sol, o branco e o cinzento das nuvens, o sal no ar e o rumor da água colocado sob o funk preguiçoso. A canção sobreviveu graças ao edit, e uma tarde de agosto sobreviverá graças à canção.
Tudo em A może by… chega um pouco mais tarde. O reconhecimento do original, a sua vida nos clubes, a minha descoberta e agora o significado que a gravação voltou a adquirir. Nada aqui pode ser acelerado, porque esta música sempre conheceu apenas o seu próprio andamento.
O baixo dá mais um passo preguiçoso. Os sinais já estão colocados de maneira um pouco diferente.













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